Stones, Exilados no Paraíso

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CDs que você tem que ouvir antes de morrer

por Sérgio 'Cebola' Martinez

Irmãos, vossas almas podem ser salvas, ou perdidas, ou esquecidas ou simplesmente caírem na mais pura festa sem compaixão pelo semelhante. Quando os Rolling Stones resolveram se exilar na França com seu móbile studio no início da década de 70, conjuraram espíritos e sons e riffs e tapeçarias de guitarras e sopros em sublime rock'n'roll e soul e pervertidos blues profundos cantados em uma orgia digna da perdição eterna, só para nós, e foi tudo registrado, oh lord, a bíblia infernal, a verdadeira caixa de Pandora. Exile on Main Street, duplo álbum de 72 é muito e é somente isso. Celebração e reverência. Festa pagã. Mick Taylor no ápice de sua criatividade, antes de deixar-se sucumbir ao lado negro dos Stones (tem outro lado?), e Keith Richards, esse já perdido mesmo, comandam uma profusão de canções de guitarras na mais perfeita dupla antes da segunda vinda do filho do Cara lá de cima.

Antes, já haviam cometido o Sticky Fingers, obra prima, o Let it Bleed, fundamental, o Beggar´s Banket, o da simpatia pelo demo, acho que vocês conhecem... Mas é neste, meus irmãos perdidos, em três meses de Jack Daniels, coca e simpatia, que nossos cinco heróis se superaram. E A voz. Jagger, nunca mesmo, cantou tanto quanto neste disco. E, ironia, é o registro em que sua voz está mais "afundada" na mixagem. Propositalmente, Jimmi Miller, o produtor, não deu destaque ao vocal de Jagger, colocando-o no meio das guitarras e pianos, de tal forma que por vezes (instantes) quase não o ouvimos.

Desde a abertura com Rocks Off, o convite é claro: " And i only get my rocks off while i´m dreaming, I only get my rocks off while I´m sleeping." É 'colocamos o disco e então...Entra mais um na coleção dos riffs desgraçadamente matadores de Mr. Keith Riffhards. È isso aí mesmo, não escrevi errado não. Uma coisa que pode ser dito da produção é que é tudo ALTO. Alguém disse que a impressão que dá é de que tá todo mundo tentando soar mais ALTO do que o outro. Rip this Joint é o segundo salmo do evangelho maldito, e ou você dança ou dança, "Rip this joint, gonna save your soul", o chamado é claro, irmãos, save your soul and let it rock. Track 3, Hip Shake, blues bêbado de mestre Slim Harpo, onde Jagger mostra QUEM é O cantor branco de blues, deep blues, lembrem-se, de preto véio na encruzilhada. Depois temos boogie, Casino Boogie, temos A balada soul rock de todos os tempos, antes e agora e sempre, Tumbling Dice, perfeita e clássica. Mr Charlie Watts, na sua suprema elegância, sutil, jazzy, sem excessos, no ponto exato, Sublinhando e pontuando os compassos, sem precisar de "Hey, vejam só como eu sou foda badabadadadadadprrráaaasxxxhh!!". Nem tente.

Quando começa Sweet Virginia, você se pergunta, caralho, é uma banda inglesa?!?!. "Thank you for your wine, Califórnia/ Thank you for your sweet and bitter fruits./ yes I got the desert in my toenail/and I hid the speed inside my shoe'. E a estrada é longa e cheia de desvios, a escolha é sua, irmão, a Palavra tem de ser dita, Torn & Frayed, Black Angel, Loving Cup, está tudo lá. Os caras saem da Inglaterra, e gravam na França o melhor disco americano de todos os tempos, ISSO é globalização, crianças perdidas. O lado 3 (o disco é duplo, e era Vinyl no século passado, pergunte ao seu professor de arqueologia), abre com a melhor canção cantada por Keith Richards nos Stones e fora, Happy, e a sensação é essa mesmo: I need a love to keep me happy/baby keep me happy. É desse lado (ok, faixa 13 no cd) que o demo dá as caras. Just Wanna see His Face é sombria, estranha, parece um vodu. O clima é meio claustrofóbico, para uma letra que diz que você não quer andar e falar sobre Jesus, só ver a Sua face. Credo!

No quarto lado não há perdão senhoras e senhores. Back to rock, mas chafurdado em rithym n´blues. All Down the Line segue a pregação: I need a shot of salvation, baby, once in a while' . Depois uma reverência ao pai de todos, Robert Johnson (hei, quem vai fazer um post sobre Ele?), Stop Breaking Down, aliás, uma recriação desta música, como eles já haviam feito com Love in Vain, do mesmo Mr. Johnson (de joelhos, por favor). Shine a Light é (é claro), um gospel embebido em puro soul pronto pra converter demônios em santos (e vice versa). "May the good Lord shine a light on you,/Make every song you sing your favrite tune./May the good Lord shine a light on you,/ Warm like the evening sun.

Pra encerrar, Soul Survivor. Sintomática, não? Então ouça. E foi assim, e ainda é e vai ser por muito tempo. Está lá pra quem quiser ver/ouvir/roubar, goste de punk, de indie, black, hard, ou forró, baixe este evangelho no seu computador e diga bem alto: É somente rock'n´roll mas eu goooooossssssto!!!!! Vendam suas almas, irmãos, não tem muita utilidade pra ela mesmo.